Curso "A Jornada do Herói e o Cristo Interno"

Oficina de Filtro dos Sonhos

Nascida de uma junção multidisciplinar espontânea entre a mitologia, a psicologia, a literatura e o cinema, a estrutura narrativa mítica, a Jornada do Herói tem-se revelado altamente eficaz na ficção, especialmente quando trabalhada por criadores de gênio como George Lucas e Steven Spielberg.

O uso desse poderoso instrumento no cinema inspirou-me a desenhar uma possibilidade de aplicação em narrativas da vida real. Acabei por incorporá-lo experimentalmente ao meu método em desenvolvimento de histórias de vida, no contexto da minha proposta de Jornalismo Literário Avançado. Já tive inclusive a oportunidade de orientar uma Tese de Doutorado - a de Monica Martinez -, na ECA-USP, onde essa abordagem foi testada com sucesso numa situação específica de ensino de jornalismo.

Simples e profunda ao mesmo tempo, a Jornada do Herói é fruto de uma abordagem extraordinária que, espero, será melhor compreendida e empregada neste século 21, quando caminhamos para um salto de qualidade no nosso modo de entender a realidade. Novos paradigmas, o pensamento complexo e a transdisciplinaridade nos impulsionam para uma indispensável revisão dos alicerces epistemológicos que sustentam os nossos procedimentos de conhecimento do mundo, particularmente nas ciências.

Advogo que a melhor postura de base para o jornalismo de profundidade do futuro - ou para a literatura da realidade, como preferir -, desde agora, é a adoção urgente de um foco transdisciplinar. Este foco deve estar organizado em torno da transversalidade dos modos de conhecimento - as ciências, as artes, a filosofia perene, as tradições -, da complexidade e dos diferentes níveis de realidade, do processo evolutivo que impulsiona a existência e da compreensão do ser humano sob um novo olhar ampliado. Por demasiado tempo o jornalismo andou limitado, cego, aprisionado por paradigmas reducionistas que lhe dão um caráter de superficialidade incompatível com a nossa época de aceleradas transformações.

Tenho esperança que narrativas da vida real venham contribuir vigorosamente para o processo evolutivo, pois, sendo aberto, tem como sombra ameaçadora seu irmão oposto, o processo involutivo. Para nos preparar para isso, enquanto não temos muitos exemplos concretos na nossa área, podemos aprender uma lição ou duas com o mestre Steven Spielberg.

O filme "Indiana Jones e a Última Cruzada" é, para mim, até hoje, a obra cinematográfica comercial que melhor utilizou a Jornada do Herói não apenas para contar bem uma história. Utilizou-a magistralmente para transportar um conteúdo vital de sensibilização - sutil e simbólica - do indivíduo quanto à jornada evolutiva real pela qual cada um de nós trafega na vida, pontuando desafios, estágios e caminhos possíveis de sucesso. 
A narrativa é extremamente rica de recursos da Jornada, mas atenho-me aqui a alguns aspectos.

Depois da parte introdutória, em que se recuperam dois episódios do passado do protagonista, a nova aventura começa, propriamente, com Indiana Jones como professor universitário. Sua primeira frase, dando uma aula, é emblemática: "Arqueologia é fatos".
A frase denota alguém enraizado num modo de percepção concreto, estruturado em torno do pensamento linear racionalista. Na linguagem de escolas da psicologia humanista profunda - como a da psicossíntese ou a de Carl Gustav Jung - temos aqui um ser humano psiquicamente organizado em torno do ego.

Ao longo da aventura em que se mete, porém, Indiana vê-se diante da impotência do ego - e do pensamento linear - em, sozinhos, tirar-lhe de apuros. No auge da encrenca, comprometido a salvar o pai, tem de recorrer a outros recursos, descobrindo-os em si mesmo, para responder aos complicados desafios que enfrenta e que já são do domínio da complexidade. Primeiro, precisa, simbolicamente, render-se a um poder superior, decifrando uma difícil charada de vida ou morte, evitando assim ser decapitado. Logo em seguida precisa adivinhar o nome desse poder, reconhecendo-o.

Como se não bastasse, depois enfrenta o teste quase supremo, que é a entrega total, o abandono do resto de certeza que o ego talvez ainda lhe desse, para deixar-se levar incondicionalmente pela fé. A cena, no filme, é belíssima:

Indiana termina de atravessar uma caverna e vê-se, na saída dela, diante de um abismo. Mas precisa seguir. Tentar saltar para o outro lado seria suicídio, missão impossível. Felizmente, como já está mentalmente funcionando em termos do pensamento complexo, tendo abandonado de vez o estreito pensamento racionalista, interpreta corretamente o último preceito que o guia. Coloca a mão esquerda sobre o peito, fecha os olhos, entregue ao destino, e dá um passo adiante, sobre o abismo. Acontece-lhe então a surpresa das surpresas.

Nesse gesto, além de ter avançado a base do seu pensamento do modo simples para o complexo, o protagonista está ampliando sua condição de ser humano. Consolida sua capacidade de agir também pelos sentimentos - afinal, está ali por amor ao pai - e pela fé, essa habilidade incomum de se entregar incondicionalmente a uma força superior e invisível, lançando-se no vazio, tomando decisões e agindo sem o amparo dos fatos concretos que antes sustentavam-lhe o pensamento puramente linear. Este, é inútil nessas condições.

Os personagens estão naquela aventura por causa do Santo Graal, o cálice que, diz a lenda, recolheu o sangue de Jesus Cristo na cruz e que, descoberto, seria capaz de conceder vida eterna ao descobridor. Indiana chega a colocar a mão no Graal, mas amorosamente alertado pela sabedoria do pai, larga-o, não se apossando dele. Por fim, concluída a aventura, a última lição da Jornada e de Spielberg:

Indiana pergunta ao pai o que ganhou com tudo aquilo, arriscando a vida por causa de um idéia, já que nem o tesouro, aparentemente, ele leva para casa. Com o enorme talento que Deus lhe deu, Sean Connery, no papel do pai, olha fixamente para a câmera (ou melhor, para o espectador) e diz uma única palavra, os olhos brilhantes como diamantes de alto quilate:

- Iluminação.

O que podemos extrair daí, para uma escola de narrativas da vida real que efetivamente ouse enxergar o futuro, é a origem de uma família de pautas extraordinárias e radicalmente revolucionárias como o mundo jamais viu, no jornalismo. Ali está o código decifrado e a pista de uma missão que, assumida algum dia, elevará a narrativa da realidade para um patamar impecável de qualidade. Contribuirá de vez por todas para o grande processo de evolução das consciências que está em curso, em contrapartida à contracorrente da involução que lamentavelmente domina a maior parte da produção dos meios de comunicação de massa, inclusive no jornalismo.

A lucidez que está chegando às ilhas de excelência do conhecimento de ponta, onde ciências e outras formas de saber dialogam em bases renovadas, sugere que estamos vivendo um momento crucialmente importante. Os indivíduos e a espécie humana estão sendo estimulados a romper os véus que cegaram nossa visão da realidade durante tanto tempo. Ou fazemos isso ou caímos num retrocesso trágico da civilização.

Mas o salto para a nova visão - para a qual colaboram o pensamento complexo e a transdisciplinaridade - é cheio de riscos. O maior deles é nossa própria ignorância preconceituosa, manipulada maquiavelicamente pelos que não querem que enxerguemos. A resistência interna condicionada é o nosso maior inimigo.

Sugere a psicologia humanista que no processo evolutivo do indivíduo - e podemos dizer, da coletividade humana - há um momento em que o ego tem que ceder espaço a uma outra instância psíquica mais refinada, chamada de Self ou Eu Superior. Quando a Jornada do Herói atinge a plenitude, revela, em paralelo às aventuras externas dos personagens principais, essa aventura interior de ampliação de consciência, que sobe para um novo nível até então desconhecido, exigindo o aprendizado de um modo inusitado de interação com a realidade. Só que para isso o ego descobre-se insuficiente, diante dos desafios complexos que não compreende e com os quais não consegue lidar com eficácia. No desespero, sabendo ou não disso, o indivíduo precisa descobrir em si próprio o Self, instância psíquica superior, cujo caminho de acesso é a fé. Ao chegar ao nível do Self, descobre que reside dentro de si uma porção divina, que ao mesmo tempo é sua e é de um Todo amplo que envolve (manifestadamente ou oculto) tudo o que existe.

A última e verdadeira Jornada do Herói é a jornada da descoberta do nosso potencial divino. É a longa navegação rumo à nossa plenitude enquanto seres oriundos de uma consciência superior, onipresente e amorosa, que nos ampara no nosso processo de evolução, mas espera a nossa ação proativa nessa direção.

Essa porção divina foi simbolizada e transmitida, no nível arquetípico, pela figura de Jesus Cristo. Evento histórico ou lenda, não importa como a pessoa o vê. Seja a pessoa religiosa ou atéia, cética ou mística, tampouco importa, no fundo. O caso é que existe implantada arquetipicamente em algum nível da consciência (ou inconsciência) do indivíduo a idéia-motriz de que o ser humano origina-se de uma força (ou inteligência ou consciência, ou Deus, como queira) criadora perfeita. E que sua maior realização possível consiste em descobrir e comprovar conscientemente em si mesmo essa verdade.

Jesus Cristo e sua história navegam nesse oceano arquetípico, ao longo das eras e dos povos, como um magnífico exemplo do caminho para o Cristo interno que habita - potencialmente, pelo menos -o coração mais profundo e sutil de cada ser humano. As religiões prestam-se a auxiliar nessa jornada, de algum modo, mas, por vezes, fazem mais mal do que bem, confundindo compreensões, manipulando conhecimentos, distorcendo percepções.

O Cristo interno, aquele que precisamos aprender a descobrir, a amar e honrar em nós mesmos, não pode, porém, ser eternamente aprisionado pelas manipulações, nem pelas boas intenções equivocadas. Transcende tudo isso. Talvez alguns o encontrem nas religiões, e tudo bem se funcionar assim. Talvez outros o encontrem na ciência mais pura. Talvez na arte mais genial. Talvez na filosofia mais cristalina.

Mas todos nós somos chamados a encontrá-lo, aceitemos ou não, dentro de nós próprios. Mesmo que o chamemos de Buda ou de Krishna, de Anjo ou de Eu Superior. Mesmo que nos inspiremos na Virgem Maria ou em Nossa Senhora Aparecida, em São Francisco de Assis ou em Maria Madalena, nas árvores ou nas estrelas. Mesmo que nos apeguemos exclusivamente ao nosso intelecto ou às nossas emoções. Mesmo que não acreditemos em nada. Mesmo que abominemos tudo o que cheira a mistério insondável. Mesmo que só aceitemos o que é exclusivamente material e concreto. Mesmo com a nossa resistência ao nosso próprio bem. Mesmo com os nossos apegos. Mesmo com a nossa incapacidade de ver. Mesmo tudo.

Somos chamados para a descoberta de um amor incondicional, infalível sob qualquer circunstância, transcendente e imanente. O amor por nós próprios e pelo nosso Criador, base de todos os outros amores. O portal é o Cristo interno. Somos chamados. Um dia. Ou sempre.

O número dos que estão respondendo ao chamado cresce a olhos vistos. As histórias das jornadas dos que partem para essa descoberta pelos caminhos mais diversos, a pauta silenciosa que se expande quase que exponencialmente à nossa frente na sociedade de hoje, despontando em vidas anônimas e célebres, manifestando-se às vezes de maneira inusitada, são o repertório do que de mais verdadeiramente importante, em benefício da humanidade, as narrativas da vida real poderão fazer neste século 21 tão perigoso quanto promissor. A Jornada do Herói pode ser um excelente aliado nessa gratificante tarefa de cartografar as histórias que definitivamente valerão a pena escrever a partir de agora. As histórias da história do Grande Despertar.